quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Sopro de vida


Deitado nas dunas, sinto a areia que me molda o corpo. 
Serenamente vou abrindo os olhos ao mesmo tempo que procuro situar-me no tempo e no espaço.
Vou despertando nesta inicio de dia,  húmido, que me orvalha o rosto e subtilmente me refresca.
E o mar....o mar ali tão próximo. 
Os gritos das aves sôfregas de alimento fresco, entoam nos meus ouvidos, e simultaneamente num bailado madrugador, mergulham sob as vagas crespadas do mar em busca de uma presa fácil que lhes sacie o  apetite.
O vento sopra e presenteia-me com fragrâncias de aroma a sal, alimentando desta forma a minha alma. 
O vento que me trespassa  imuniza-me ao efeito desta dor. 
Antes prefiro ver em ti um sorriso, mesmo distante que pressentir uma lágrima tua...
Os primeiros raios de sol florescem num horizonte, ofuscante e denso, perante o meu olhar que se perpetua como num altar, absorvido numa tela única de rodapé branco, espumoso e purificador que se finda neste leito de areia e maresia onde sossego.
Tento recordar-me de como aqui vim parar. Não me assola qualquer tipo de lembrança talvez porque as recordações, lembranças ou memórias já não façam parte da minha vida.
Não me permito mais a recordar….
Pouco interessa. 
Já nada ou pouco me importa.
O meu corpo não é mais que uma barca, num misto de achas e lenha seca, que transporta o passado num baú velho e poeirento.
Não importa… Pouco interessa!
Neste caminho que me resta, rumo ao calvário de lembranças e memórias, quero confiar apenas e só na direcção dos ventos e das marés.
Pouco tempo me falta para voar neste precipício, mas prometo-te, de forma destemida, que nos breves instantes que me faltam para tocar o mar…. Vou pensar em ti....como sempre.
Numa última vez… balanço o meu corpo e flutuo nos meus pensamentos. O medo é meu cúmplice, nesta estranha forma de ocultar a minha ansiedade. …. Elevando-me....sinto-me a voar…
Oiço o vento que me trespassa, percorrendo vertiginosamente o meu corpo num silvo constante e duradouro.
O vento que brincando aos sopros, desta forma me presenteia ao mar num imenso véu de prata e me impulsiona a receber nesta descida rápida e feroz o meu cadáver inerte. 
Adoro o mar… Acalma-me e reconforta-me agora que eternamente me abraça e abriga.
Adormeço recatadamente num imenso leito de pranto salgado e profundo, insensível a todos os segredos que se escondem no fundo do mar.
Onde esta o sopro da minha vida? 
Foi resgatado pelo vento….
agora é mais fácil poder adormecer-te nas noites ao luar.


Escrito por 
Henrique Rocha Almeida

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