Semente
Quando parte uma mãe, morre uma semente, Mas não aquela que seca no chão infértil; Morre a origem, o código, a vertente Que fazia do mundo um lugar mais dócil. É um desterro que o corpo não explica, Um corte no cordão que o tempo esqueceu, Pois nela morre a parte que em nós fica De um céu que, vivo, a terra nos deu. O silêncio dela é um estrondo mudo, Um vácuo onde antes batia o compasso, Pois a mãe não é parte, a mãe é o tudo, A pele que nos sobra em cada fracasso. Enterra-se o rosto, mas não o legado, Fica o sangue a arder numa herança de dor, Pois se a semente morre, o fruto gerado É o eco eterno do seu próprio amor. Ela agora é a terra, é o vento, é o frio, É a sombra que deita quando o sol se vai, E o filho, esse rio que corre vazio, Sabe que a fonte no abismo não cai. Pois quando uma mãe se desfaz em poeira, Não morre a raiz, nem o que ela plantou; Fica a saudade — essa luz derradeira — Dizendo a morte, que o que é luz não levou. HRA 2026.04.07