terça-feira, 4 de janeiro de 2011

O que resta do que me deste...



Havia muito tempo que não chovia, e o Outono abria a porta para um vendaval de sopros, de brisas e de águas frias.
Caíam as primeiras gotas, e a terra seca, sugava-as num ápice. Nesse dia uma porta se fechou e nem uma pequena janela se abriu. Talvez o frio que me percorria  fosse só apenas o sentimento da solidão.
Um ruido de madeira seca solfejou pelo corredor e um trilho metalico esbateu-se na portada, rangendo suave e vagarosamente. Por fim o silencio - Tu já tinhas partido.
Julguei-me em paz....A batalha poderia ter sido mais dura, mas a guerra ainda não terminara.
Apaguei todas as luzes e se não fosse de noite, teria desejado apagar tambem a luz do Sol. Por sorte hoje não havia luar e só me restava por fim a escuridão.
Deitado, de olhos postrados no escuro, pensei em todas as palavras que usámos como lanças, verdadeiros artefactos de guerra, poderosas armas de devastação. 
A vida desperta-nos com cada surpresa....
Outrora, outras palavras seriam lançadas como flechas de paz e carinho, de amor e segredos cumplices. Transformámo-nos em guerreiros de lutas perdidas, como perdido julgava o tempo que dispensei contigo.
Ainda hoje me doem as feridas, mas já não sangram como outrora!
No fundo... No fundo... o mais importante de tudo, e de tudo o que poderia perder, não eras tu. -Foi o tempo que não perdi comigo. Foram todos os segundos em que a minha mente só conhecia um sentido - o de amar-te.
Não posso errar duas vezes sem consequências, não posso procurar-te mais nos meus pensamentos, não posso fazer de ti as palavras do meu livro, nem as letras das minhas canções.
O que  resta do que me deste, foi uma melodia de silencio e  tudo o que posso e resta fazer é esquecer-me de ti.
Talvez hoje não me apeteça errar novamente, talvez até nunca mais.
Não procures a janela que não se abriu. Partistes sem pedir, não peças para regressar.
Aproveita o tempo que te resta, pois  a chave da porta que fechastes e que julgastes perdida, talvez nunca a tenhas verdadeiramente procurado e daí não a tenhas sequer encontrado.
O que resta do que me deste...dissolveu-se em pó na minha mente.


Escrito por Henrique Rocha Almeida

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